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Por que no Salão do Automóvel eu era ignorada?

21/11/2017 | Só para elas

Thais Roland, 37, trabalha como mecânica e ensina a mulheres a nunca mais caírem em golpe na oficina. Uma das poucas em um ambiente dominado por homens, ela conta o que já encarou nessa carreira.

"Desde pequena, sou apaixonada. Meu avô fazia pequenos reparos nos veículos de casa e dos vizinhos, e eu ficava sempre do lado, colada. Eu amava aquilo. Mas quando chegou a época de definir minha carreira, nem passou pela minha cabeça trabalhar com isso.

É que ainda tem essa cultura de trabalho de homem e de mulher. Então, muitas vezes, em casa, nem a família abre essa oportunidade. Foi o que aconteceu comigo. Ninguém deixaria uma garota de 17 anos sem enfiar numa oficina.

Por que no Salão do Automóvel eu era ignorada?

Fui trabalhar com tecnologia, em empresas. Trabalhei durante 15 anos com rede de computadores e construí uma carreira. Mas a paixão por carros nunca sumiu, virou um hobby. Eu gostava de cuidar do meu carro, estar por dentro das novidades do mercado e até ia ao Salão do Automóvel.

Foi nesse evento, em 2008, que eu tive meu primeiro insight. Foi um dia delicioso, em que me diverti muito e me reconectei com algo que me estimulava. Ao mesmo tempo, ainda era um lugar desconfortável. Aquele padrão de mulher embalada a vácuo do lado do carro, os caras cantando as meninas, tirando foto... E eu, que estava lá sozinha, perguntava coisas para os atendentes dos estandes e não era levada a sério.

Indo embora, no ônibus para o metrô, tive uma ideia: 'Poxa, queria que os carros estivessem um pouco mais na minha vida'. Eu gostava tanto disso, queria saber mais, mas com essa angústia de ter sido ignorada. Daí, concluí: Isso não é cosia de homem. Vou fazer um blog. E assim surgiu o "coisa de meninos nada".

No começo era um blog bem pessoal. Eu falava de carros, de tecnologia e o que mais quisesse. Era despretensioso. Até que, em 2011, comecei a ficar de saco cheio de trabalhar na empresa e queria mudar. Foi quando uma amiga comentou sobre um curso técnico de manutenção automotiva no SENAI, que era de graça. Eu arrisquei, fiz a prova e passei. Foi uma iluminação. Eu amava estar estudando aquilo. Mas nem cogitava mudar minha vida. Trabalhava em multinacional, ganhava bem, era casada. Estava tudo bem, teoricamente.

Por coincidência, houve uma troca na chefia da minha área na empresa e o novo chefe me demitiu. Bem, eu saí com um dinheiro bom, então decidi procurar estágio em oficina, e não saí mais! No primeiro dia, quando voltei para casa cansada, suja de graxa, sabendo que tinha botado um carro para funcionar, eu pensei: "É isso que eu quero fazer para o resto da vida".

Então decidi levar tudo mais a sério. Retomei o blog, comecei a escrever mais e estudar, também. Logo mudei para uma outra oficina, onde o dono era muito cabeça aberta e tivemos a ideia de fazer, aos sábados, um café da manhã com com as clientes, onde eu mostrava para elas o que fazia no carro quando vinha para revisão. Era demais!

De fato, o ambiente da mecânica é dominado por homens, ainda tem pouca mulher. Mas não acho que a oficina seja um ambiente hostil. Já passei mais constrangimento em empresa grande do que em oficina. No começo, os homens tinham uma primeira reação de proteger. 'Você não vai fazer isso, é muito pesado, vai se machucar'. Mas quando perceberam que eu estava lá para trabalhar, mesmo, sossegaram e começamos a ficar amigos, parceiros de trabalho.

Acho que a maior hostilidade que via era nos momentos ociosos, quando eles se acumulavam lá na porta e mexiam com as mulheres que passavam na rua. Mas um dia eu parei atrás deles e fiz um comentário. Ficaram morrendo de vergonha, me pediram desculpa e nunca mais fizeram isso.

Acho que é muito mais um estereótipo que acabam incorporando. Existe uma outra forma de desrespeito com mulher que acontece que é quando elas são atendidas de uma forma a já ver o que não entendem, para empurrar um monte de serviços dos quais não precisam.

Exatamente por saber como as pessoas são enganadas nas oficinas, vi uma oportunidade de ajudar realmente as pessoas. Atualmente, eu não trabalho mais nas oficinas. Dou consultoria para mulheres que compram ou querem consertar seus carros e, em alguns casos, meto a mão na massa.

Além disso, produzo vídeos e textos, além de cursos, com a intenção de mostrar que a manutenção do carro não é um bicho de sete cabeças. Algumas coisas realmente exigem profissionais. Outras, você pode fazer em casa. É importante ter conhecimento, poder ir ao mecânico sabendo discutir se precisa mesmo trocar aquela pastilha.


Fonte: Uol Comportamento

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